É normal que se faça a conexão entre um monstro com consciência a uma aberração ainda mais asquerosa do que o monstro que comprovadamente não sabe o que faz, já que é muito fácil transferir empatia pelo desavisado, manipulado ou alienado. É por isso também que uma das coisas que perguntam primeiramente a um assassino é se ele/ela sente algum remorso, pois o remorso gera identificação, assim também como a vingança que tem aparência de justiça. Mas vamos voltar a motivação principal do texto, no conto de Diana Magalhães percebemos que tais premissas apresentadas nem sempre são verdadeiras, já que ao fim dessa leitura percebemos que a personagem Fernanda Castro após passar pelo processo de transformação em morto vivo, permanece com sua consciência, seus sentimentos e memória vivas, tornando-se mais assustadora do que outros monstros errantes e também engrandecendo o seu papel enquanto cabeça da coletânea Elo de carne.

“Por mais que eu buscasse, não havia espaço para arrependimento naquele corpo. Jamais o peso da culpa poderia se acumular sobre meus ombros, já que agora eu sequer conseguia distingui-los do restante de massa que se tornara a minha silhueta monstruosa e disforme.

Tal trecho aparece logo depois de que a zumbi devora duas crianças na ânsia de saciar sua fome, e ela se martiriza por não conseguir sentir o remorso, o que eu como leitora talvez deveria ver com uma fraqueza, vejo como verdade, no sentido de que a personagem se rasga para o nosso entendimento e requisita nossa empatia e identificação ao observar a consciência de algo perigoso e tão nefasto, todavia consegue nos capturar afetuosamente de uma forma inesperada, que motiva a imersão contínua, logo essa ausência de remorso também gera empatia.

Eu arrancaria minhas próprias costelas expostas e faria delas talheres do banquete macabro com o qual pretendia me deliciar. Devoraria pele, músculos, cartilagem e até mesmo os dentes daqueles que sorriam ao me confinar debaixo d’água.

Esse outro provocou em mim uma sensação de vingança mas não a vingança depreciativa, com a qual concordamos envergonhados,e separamos da justiça técnica. Foi a vingança que causa prazer a vingança que causa o calor mais profundo e amaldiçoado que se pode sentir, afinal a causa não é exatamente justa, a criatura tinha completa noção de seus atos mas assim a identificação ainda é possível, e aqui com a reunião de essas outras passagens o valor positivo nesse tipo de abordagem se escancara. Colocando o leitor para pensar e sentir como um monstro sem sentir mal por isso.

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