Acho que posso começar essa resenha com um trecho que me marcou profundamente:
“Em Arrastados, aprendemos que a morte é avermelhada”
O livro conta com detalhes o desastre do rompimento da barragem do Córrego do Feijão,
em Brumadinho. Horas antes, durante e todo o processo de buscas e ações de socorro aos
sobreviventes e mortos pela enxurrada de rejeitos.
Com um pequeno prefácio explicativo pelo gênio, o apresentador e jornalista, Pedro Bial, já
de cara nos deparamos com o tom sombrio e cru que acompanha toda a jornada do livro.
Daniela Arbex, nos apresenta alguns personagens que vivenciam uma rotina comum
daquele 25 de janeiro de 2019, que viria a ser o maior desastre humanitário da história do
Brasil.
De fato é completamente inviável não se sentir tocada, emocionada, triste, com sentimento
de injustiça derramado por todos os poros, ao longo dessa leitura tão fluída que a jornalista
nos traz. Somos transportados para o dia e a hora do acidente e vemos como o mesmo
muda a vida de todos. O sofrimento dos parentes que ficam sem respostas até hoje, pois
não foram encontrados todos os corpos dos desaparecidos. E o trabalho excelente e
empático de militares, bombeiros, socorristas, médico-legistas, civis e etc. Brumadinho nos
mostra que, por mais avermelhado que possa ser o obstáculo, nada como um gesto de
solidariedade para abraçar e confortar alguém machucado, cheio da mais pura dor.
Inúmeros sonhos, vontades, sentimentos, carne, vida, simplesmente destruídos em questão
de segundos. Soterrados vivos. Destruídos por um tsunami marrom e tóxico. Com, ao todo,
272 mortes a empresa Vale S.A consegue um novo feito depois de se tornar o maior
desastre ambiental com o rompimento da barragem de Fundão, Mariana, em 2015. A
história se repete com Brumadinho e desta vez, muito mais brutal do que antes.
Daniela nos instiga também a se perguntar se esses tipos de impunidades vão continuar se
perpetuando de tempos em tempos, mesmo com todas as lições que se pode levar de dois
desastres tão próximos um do outro. Além de escancarar a forma que as barragens hoje no
Brasil são instáveis e um investimento ainda de muito alto risco, de todas as barragens 60%
delas não são sinalizadas e boa parte das que estão, apenas 10% estão indicadas como
“ótimas” dentro das FS (Fator de Segurança), indicadas como seguras.
O livro é uma grande denúncia de uma impunidade e também, a oportunidade dos
familiares em ter um espaço para falar de forma sensível de seus entes queridos, da dor da
perda e como um único dia foi capaz de destruir e modificar vidas de um município inteiro.
Em homenagem a todos os que tiveram alguma perda no desastre, e aqueles que ainda
não puderam ter a paz de dar um fim/início do processo de luto, Daniela joga suas próprias
dores nas páginas e nos apresenta um claro trabalho bem feito, transbordado de empatia e
muita dor.
Que Brumadinho seja a porta para que entendamos que esses acidentes não podem mais
acontecer, que a vida precisa e deve continuar sendo prioridade. Que com ele, possamos
refletir. Que cada uma das 272 mortes não sejam em vão.
Muito mais do que apenas 5 estrelas, livro favorito com toda a certeza.
Livro: Arrastados/Daniela Arbex/Intríseca, 2022

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